
Seis novas medidas do mundo
Depois de abalar o planeta a partir de meados de setembro, a crise impõe ao mundo um novo regime. Sem os excessos do mais longo período de prosperidade da história recente, sem as certezas construídas na academia e nos negócios, sem muitos dos parâmetros que nortearam a economia das últimas décadas. Espécie de ano que não terminou, 2008 se une a 2009 pelo último trimestre de mudanças que ainda vão sacudir o primeiro período do novo ano.Para Luiz Fernando Figueiredo, sócio-diretor da Mauá Investimentos e ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, nos Estados Unidos e na Europa as transformações serão profundas, especialmente no sistema financeiro, mas no Brasil a mudança será de cenário.Ninguém pense que Figueiredo é um grande otimista. Na sua avaliação, todo o primeiro semestre de 2009 ainda será de cinto apertado:– A menos que ocorra um acidente que a gente não está mapeando, a tendência é começar a recuperação no segundo semestre. Se, em termos absolutos, o Brasil vai sofrer menos do que a média, do ponto de vista relativo, sairá fortalecido.Um dos artífices das regras que asseguraram ao sistema financeiro nacional certa imunidade à embriaguez dos anos loucos do crédito, Figueiredo acha que a regulação impediu os bancos de fazer “as bobagens” cometidas nos países desenvolvidos:– A gente sempre acha que o Primeiro Mundo deve dar o padrão, mas depois da crise a regulação bancária vai se aproximar mais da brasileira do que o contrário. O país acabou se tornando exemplo de regulação, não só bancária mas do mercado de investimentos.Menos entusiasmado, Marcílio Marques Moreira, ex-ministro da Economia, teme que o Brasil não tenha aproveitado integralmente os anos de prosperidade para dar um salto em competitividade, eficiência e melhoria na educação, na infra-estrutura e na regulação.Nas projeções de Marcílio, o período de dieta pode exceder o calendário de 2009. Se as medidas certas forem adotadas, porém, o ex-ministro acredita ser possível desembarcar em 2010 em situação melhor do que a anterior. Mas é preciso ir além de curativos tópicos, e atacar o sempre adiado das reformas estruturais, adverte:– Não podemos mais ficar aprisionados a idéias arcaicas. O mais importante é o foco na educação e na infra-estrutura, mas o que pode dar a espinha dorsal é a reforma fiscal. Não só a tributária, da arrecadação, mas a dos gastos. Precisamos aproveitar para substituir as regras da época da substituição de importações pelas da sociedade do conhecimento.Outra ordem mundialEmbora considere a vitória de Barack Obama nas eleições presidenciais americanas “uma bênção para o mundo”, Roberto Abdenur, ex-embaixador do Brasil em Washington, não tem dúvida de que a crise alterará a correlação de forças na geopolítica.– Será um mundo com mais dispersão de poder – diagnostica.Na opinião de Abdenur, é mais correto falar em dispersão do que em multipolaridade – mantra da análise das relações internacionais. Para o ex-embaixador, não se trata do fortalecimento de quatro ou cinco pólos, mas da ascensão de vários países com economia mais dinâmica:– Entre os novos atores, está o Brasil, que passa a ter peso em decisões e soluções para a crise.Mais profunda será a mudança de conceitos dentro dos EUA, prevê Abdenur. A noção de que quanto mais soltas, mais dinâmicas e criativas seriam as forças econômicas foi embaçada pelos excessos.– Cresceu a consciência de que não só o petróleo, mas o ambiente é exaurível – alerta.É outra oportunidade para o Brasil. Em quase 15 anos do que Abdenur vê como uma “continuidade pragmática de política econômica”, o país se fortaleceu como supridor de energia e alimentos para o mundo. Na visão do diplomata, os EUA precisarão ao menos dois anos para pôr a casa em ordem.– A nova atitude internacional, com reformas do Fundo Monetário e do Banco Mundial, pode evitar um desfecho pior, a partir do final de 2009. Só não vamos voltar tão cedo à extraordinária prosperidade dos primeiros anos do século 21 – afirma.O sistema financeiroÉ onde se opera uma das mais visíveis transformações. Embora a forma e a proporção variem entre países, é nítido o aumento da presença estatal nos bancos. Ex-diretor do Banco Central, Carlos Thadeu de Freitas avalia que o papel dos governos é facilitar um ajuste penoso. Como as garantias foram avaliadas acima do valor de fato, ainda há ativos contabilizados de forma irreal. E o impacto não se resume ao socorro público:– Os bancos que recebem depósitos à vista ficaram menos vulneráveis à crise. A grande mudança é a volta ao sistema tradicional de bancos comerciais, que captam depósitos e emprestam.À medida que os bancos tiverem de reduzir sua exposição ao risco, também vão perder capacidade de emprestar. Primeiro remédio para a ressaca da turbulência, o aumento da regulação será ministrado em doses cautelosas, aposta Freitas, para não provocar sobredosagem e paralisar o sistema.O créditoAo menos no Brasil, embora de forma lenta, a concessão de crédito tende a se normalizar no decorrer de 2009. Isso não quer dizer voltar aos padrões anteriores. Financiamento no pós-crise será mais difícil, caro e seletivo. A recuperação só será mais rápida, avalia Alberto Borges Matias, pesquisador na área de crédito, risco e sistema bancário, porque os bancos brasileiros estavam proibidos de atuar agressivamente.Matias lembra que, desde o aperto do crédito, se viam ofertas de venda de carros com entrada de R$ 3 mil e saldo em 24 vezes. Depois, voltaram descontos robustos e até 60 parcelas.– As liberações de compulsório estão jogando dinheiro no mercado de crédito, o que dilata os prazos e reduz o tamanho das prestações – explica.Os negóciosMais do que um simples processo de ajuste, Alexandre Fialho, diretor de relações institucionais da Fundação Dom Cabral, identifica mudança de estratégia empresarial provocada pela crise. Enquanto a moldura dos negócios foi a euforia, as oportunidades de crescimento surgiam quase de forma automática – era hora de ocupar espaços e ganhar participação no mercado.– Antes, o critério era quantidade. Agora, é qualidade – adverte Fialho.Além de avaliar mais do que os eventuais ganhos potenciais de um projeto, as empresas têm de se planejar para controlar os riscos. Mais do que planejamento estratégico, pondera o especialista, a crise impõe uma reflexão estratégica. Fialho pondera, porém, que se a crise não tivesse atravessado o caminho empresarial, não haveria “de gente a pneu” para todos os projetos de expansão. Até no mesmo setor, observa, há muita diferença entre a situação de diferentes empresas. Por isso, o novo padrão exige observar com atenção os movimentos da cadeia, de fornecedores a clientes – no momento pré-crise, qualquer distorção era facilmente resolvida pela abundância e pelo baixo custo do capital:– Não adianta a empresa ter caixa se o seu comprador não tem.No lado da oportunidades, há outra imposição do pós-crise: renegociar com fornecedores. Mas Fialho adverte que, ao contrário das primeiras reações, não se pode negligenciar a sustentabilidade:– Não dá mais para ficar no modelo anterior.Antes do segundo trimestre, prevê Fialho, não será possível determinar o ritmo de recuperação da crise – mas por volta de abril ou maio, haverá sinais mais claros para indicar o caminho.O trabalhoAté este momento, a situação do emprego está sob luz amarela, não vermelha, avalia Cláudio Dedecca, professor da Universidade de Campinas especializado em economia do trabalho.– As crises internacionais sempre nos afetaram mais do que vemos até agora – garante.Em relação a meados de 2008, quando se desenhava um apagão de mão-de-obra, não deixa de ser uma mudança notável. Na avaliação do especialista, os últimos anos foram importantes porque evidenciaram a possibilidade de crescer e distribuir renda ao mesmo tempo.– Isso criou uma solidariedade, uma comunhão de interesses entre empresas e trabalhadores. Ninguém quer perder – analisa.Na visão de Dedecca, a maioria das empresas brasileiras age de forma responsável ao conceder férias coletivas, evitando demissões precipitadas. Interessa às duas partes encontrar soluções que sustentem o crescimento em 2009, mas ele não considera a flexibilização das regras trabalhistas o melhor caminho, até porque sua aprovação no Congresso consumiria meses:– Só seria aprovada depois da crise passar. Há outras medidas, como incentivo ao crédito, gasto em infra-estrutura e redução da taxa de juro, que podem ser mais rápidas e efetivas.O consumoNas duas pontas do processo há transformações. Economista e diretor do Instituto de Economia Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Marcel Solimeo acredita que a crise muda hábitos do consumidor e condiciona a oferta de produtos. Depois de ofertas de até 90 parcelas, o prazo de financiamento de automóveis deve estacionar em 48 meses, em média.– O consumidor de menor renda deixará de ter acesso a alguns bens, enquanto a indústria irá fabricar produtos de custos menores – prevê.É uma tendência que já está instalada na oferta de computadores, exemplifica Solimeo. Pressionados pela alta do câmbio, os fabricantes optam por reduzir a potência do equipamento ou o tamanho da tela para manter vendas razoáveis.Assim como neste mês, quando muitas lojas encolheram as margens de lucro para fazer caixa, o economista prevê um festival de liquidações no início de 2009. Sacrifício para os comerciantes, oportunidade para os consumidores.– O dinheiro está à disposição dos bancos, mas tudo indica que a inadimplência vai aumentar – avisa Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central.
MARTA SFREDO
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